quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Caso 13


Podia ser de manhã, mas não era. Podia ser de tarde, mas não era. Era de noite. Mas, como ainda era cedo, nem se pode dizer que fosse demasiado tarde. Embora, o cedo ou o tarde, tal como o perto ou o longe, o grande e o pequeno, dependem de diversos factores e circunstâncias: tantas e tantas vezes o que para uns é quente é frio para outros, o que para uns é feio para outros é belo.
Mas era de noite, uma noite fria de Inverno, em que a sala iluminada pela lareira quente, embebida no vinho tinto que aquece os corpos e faz sorrir as almas, clamava pelo silêncio contemplativo. Lá fora, a chuva caía bruta, mas, cá dentro, sentia-se a tranquilidade calma dos dias serenos. Hermenegilda e Patricio eram primos e viviam juntos há mais de três anos, mas, há quase um, que raramente tinha intimidades, porquanto, o coração dela pertencia a outra pessoa que, desde há meses, era dona do seu corpo. E fugiram numa tarde de Fevereiro; primeiro para a ilha da Madeira, depois, para uma ilha tropical onde casaram, no mesmo dia em que chegaram, em segredo.
Regressaram, casadas, ambas felizes, decididas a terminar a licenciatura de serviço social o mais rápido possível; o drama, o terror, a fado cruel, o pior de tudo, era a cadeira de Direito da Família, dificílima, que o estupor de um professor que recorrentemente as reprovava. Foram morar para uma casa comprada com algum dinheiro que Hermenegilda já tinha e outro que ambas, já casadas, pediram ao banco.
Blimunda, como carinhosamente a chamava a sua amada, comprou também um carro, bonito. Tudo corria bem e decidiram que queriam ser mães, pelo que, adoptaram Ptolomeu; mais tarde, Hermenegilda quis ser mãe biológica, pelo que, persuadiu André a fazer um generoso contributo, nascendo assim a filha, que Blimunda e Hermenegilda criaram como se fosse parte das duas.
Mas Blimunda tinha um vício; um vício terrível, maléfico, horrendo, aterrador, um vício chamado Horácio, pelo que, uma qualquer noite, escondida pelo breu, foi com ele para trás de uma moita e fizeram muito amor, tanto amor, que Blimunda abandonou os filhos e a mulher que era a amada. E dívidas, um monte de dívidas por pagar, mormente, o carro que tinha comprado, uma jóia cara que tinha oferecido a Hermenegilda, um ipad para o Horácio, e, ainda quis, ficar com a casa para si.
E Horácio ficou tão feliz, que bateu até ela ser candidata a uma dentadura nova. E depois fugiu, porque, na noite anterior, tinha tido relações sexuais com uma miúda de 15 anos.
Quid Juris

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