terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Caso 21



Deolinda estava sentada num pequeno banco de madeira, aproveitando uma deslumbrante visão do grande lago do Sul, perdida nos seus pensamentos, recordando, com lágrimas, as ultimas semanas da sua vida, após um fantástico repasto num maravilhoso restaurante de Monsaraz! Sentia-se culpada. Dos seus erros e dos erros dos outros!
Nessa tarde tinha assistido ao casamento da sua melhor amiga: Maria, sumptuosamente bela, com tez morena, longos e cuidados cabelos negros, cheios de vida e pudor, um corpo de criança que começava a desabrochar aos 15 anos, havia contraído matrimónio com Juvenal, catorze anos mais velho, num casamento cigano que demorou três dias e outras tantas noites!
Deolinda era dois anos mais velha que a amiga e já trabalhava, como estilista de uma conceituada marca, após ganhar o primeiro prémio num concurso de Moda, organizado por uma empresa cujo nome não posso dizer, para não ferir a susceptibilidade inocente das criancinhas que têm de fazer este teste. Com o primeiro ordenado, Deolinda comprou um pc Apple que era caríssimo, mas lindo de morrer; bem como um iphone por 600€, usando o dinheiro que a sua mão lhe deu de prenda de anos!
Mas as lágrimas de Deolinda não eram apenas em honra da sua amiga: chorava de pânico e medo, de dúvidas e remorsos, sem saber o destino a dar ao filho que carregava no seu ventre, concebido sem amor numa noite de copos. Com temor ao pai, ainda ponderou casar com Reinaldo, o futuro pai. Mas o Decreto-lei 120/09 de 17 de Novembro determinava que a capacidade jurídica para casar passaria para os 20 anos!
E o choro compulsivo fazia-a recordar a sua avó, uma forte e abnegada senhora que desde pequena foi toda a sua família, cumprindo com excelência a ausência dos seus pais que emigraram para um País distante para fugir da miséria, deixando Deolinda nos braços ternos da sua avozinha, que foi mãe e pai, mana e melhor amiga: até ao fatídico dia em que numa operação perdeu a visão, para se deixar cegar na tristeza de não sair de casa, deixando de cuidar das casas e terras que foram desde sempre a sua vida!
Deolinda com lágrimas de choro olhava o lago distante e tão perto, a ponte que lhe fazia perpassar na mente pensamentos fatalistas, com a certeza errada que era a mais infeliz petiza do mundo! Até que chegou Óscar! Que lhe roubou um sorriso, que a fez despertar de letargia, fazendo-lhe festas, sentando-o no seu colo e afagando-o contra o peito, em instantes de carinho, que lhe devolveram um pequeno sorriso ao rosto triste! Porque não há amizade mais puro que o carinho dos cachorros com os seus donos!
Quid Juris

Caso 20


Foi em Setembro que se conheceram! Ela trazia nos olhos a luz de Maio, nas mãos o calor de Agosto e um sorriso tão grande que não cabia no tempo.
Ele disse-lhe: “ Ouve, vamos ver o mar...”
Foram o 30 de Fevereiro de um ano por inventar, falam coisas tão loucas e acabaram em silêncio, por unir as suas bocas e ele aprendeu a amar. Ainda o relógio marcava dezassete anos!
Mas amou-a como ninguém tinha amado antes. Quis dar-lhe o sol, quis oferecer-lhe as estrelas, mas como lhe faltou o talento ofereceu-lhe um anel, muitas flores, um lingerie sensual comprada nos chineses e um iphone 4, este, com dinheiro que desviou da carteira da mãe.
Foi em Novembro que ela partiu, levou nos olhos as chuvas de Março e nas mãos o mês frio de Janeiro
Lembro-me que ele lhe disse que o seu corpo tremia, mas ele, que queria ser forte, respondeu que tinha frio, falou-lhe do vento norte. Não lhe disse adeus, quem sabe talvez um dia...
Como ele tremia meu Deus! Amou como nunca amou! E nessa noite pela primeira vez na sua vida embebedou-se e acordou num motel com Jeremias, depois de ter comprado ao dono do bar um computador portátil para ir actualizar o Facebook! O dono do bar, um sensual invisual!
Foi louco? Não sei, talvez! Mas por pouco, muito pouco, ele voltaria a ser louco e amá-la-ia outra vez, mesmo sabendo que ela estava dependente da cocaína e roubava-o, tendo mesmo chegado a agredi-lo!
Sim eu sei que tudo são recordações, sim eu sei é triste viver de ilusões, mas esta foi a mais linda história de amor que um dia aconteceu e recordar é viver, ainda que uma Directiva comunitária tenha proibido o casamento antes dos vinte anos, para diminuir a taxa de infidelidade entre os estudantes do ensino superior, porquanto, há a tradição destes alunos beberem demasiado às quintas-feiras e depois perderem a noção do que fazem e com quem fazem!
Sim eu sei que tudo são recordações, sim eu sei é triste viver de ilusões, mas este foi o mais lindo caso prático que um dia me aconteceu!
Quid Juris

Caso 19





Eles eram duas crianças a viver esperanças, a saber sorrir. Ela tem cabelos louros, ele tem tesouros para repartir. Numa outra brincadeira passam mesmo à beira, sempre sem falar.Uns olhares envergonhados e são namorados sem ninguém pensar, com medo do pai dela, que lhe prometeu uma sova, se ela namorasse antes dos dezoito anos.
Foram juntos outro dia, como por magia, no autocarro, em pé. Ele lá lhe disse, a medo: "O meu nome é Pedro e o teu qual é?" Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho: "Sou a Cinderela, e se queres namorar comigo, tens de oferecer-me um iphone 4 comprado na Worten de Grandola”.
Quando a noite o envolveu ele adormeceu e sonhou com ela...Então, Bate, bate coração, louco, louco de ilusão, que a idade assim não tem valor e ele é menor mas trabalha desde os 16, mas como gasta o dinheiro todo a viajar entre Lagos e Évora, pediu emprestada à avó e ofereceu-lhe a prenda.
Crescer, vai dar tempo p'ra aprender, vai dar jeito p'ra viver, o seu primeiro amor. O seu, do Pedro, que era filho de pai invisual, profundamente rico e de uma mãe leviada, que dormia com outros homens, até mesmo um vizinho barrigudo de barbas grandes que em Dezembro vestia-se sempre de vermelho, presumo por ser do Benfica!
Cinderela das histórias, a avivar memórias, a deixar mistério, já o fez andar na lua, no meio da rua e a chover a sério, embora, quando isso aconteceu, ele tinha bebido demasiado e, perdidamente embriagado, comprou um guarda-chuva amarelo.
Ela, quando lá o viu, encharcado e frio, quase o abraçou, com a cara assim molhada, ninguém deu por nada, ele até chorou...
E agora, nos recreios, dão os seus passeios, fazem muitos planos, e dividem a merenda, tal como uma prenda que se dá nos anos, porque, como se sabe, é tradição dar uma prenda de aniversário.
E, num desses bons momentos, houve sentimentos a falar por si, ele pegou na mão dela: "Sabes Cinderela, eu gosto de ti..."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Caso 18


O tipo até podia não ser má pessoa, mas tinha cara de tonto. Para citar uma pessoa sábia, “morava na rua que ia bater ao chines” e tinha o privilégio de fazer o que gosta, embora, tantas e tantas vezes, embatesse na incompreensão ignóbil dos “umbiguistas”!
Os factos são bizarros e até sinto constrangido em vasculhar a intimidade desta boa gente, mas a dura e cruel verdade é que dentro de cada um de nós grita um vouyer, a triste curiosidade pelas trivialidades dos segredos alheios: no caso o segredo de dois irmãos, que escondidos do mundo, há três anos que faziam o amor, todas as noites, depois dos pais se deitarem, quase sempre na cave da casa, porque ele tinha o terrível defeito de gritar demasiado alto, naqueles instantes. Ele chamava-se Manuel Maria e ela Maria Manuel, esclareço, para que não passem o teste a queixar-se de que os manos, ambos maiores de idade, não têm nome e que depois fica tudo confuso, como se, a culpa da confusão, fosse a nomenclatura da coisa!
Carolina e Carolino, Catarina e Catarino são gémeos; e resolveram casar os quatro, numa viagem que fizeram todos juntos. Antes dos meus bons alunos terem pensamentos perversos, não casaram os quatro, antes, eles como eles, elas com elas, como é moderno!
Sucede que, quando cá chegaram, elas registaram o casamento e eles não! Coisas de gajos!
Foram às compras e compraram; estranho seria, se fossem às compras e vendessem; comprar carros topo de gama, uma bicicleta e uma moto de água que Catarina ofereceu ao pai dela. Como o meu excelso discente percebeu, não pagaram nada disto e, entre todos, o único património que existe, é uma casa que Carolina tinha recebido de herança.
Tudo corria bem até aparecer a Vanessa Cátia Sofia, uma miúda que morava numa Instituição e que desde petiza era abusada por uma freira; com 15 anos, apaixonou-se perdidamente por Carolina, seduziu-a de todas as maneiras possíveis, algumas até impossíveis, encantou-a com o seu sorriso, até que, o inevitável aconteceu: Carolina deixou-se cair na tentação e fizer o mais terno amor que há memória. Ou não, porque eu não fui convidado para assistir!
Quid Juris

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Caso 17


Era daquelas manhas que podia perfeitamente ser de tarde! Até porque se quisermos ser amigos da verdade, afirmar que uma manhã podia ser uma tarde é uma daquelas expressões, que apesar da exuberante beleza poética, sinceramente não quer dizer nada, pelo que o desgraçado discente que vai ter de resolver o presente caso prático, perde o seu precioso tempo, lendo um lindo texto, repleto de expressões desinteressantes, num longo parágrafo que, sejamos honestos, não serve para absolutamente mais nada do que aumentar a sua ansiedade!
Bentinho e Capitolina cresceram como irmãos, desde a mais pura das idades, partilhando brinquedos e cumplicidades, penicos e fraldas, lágrimas e sorrisos, como dois verdadeiros irmãos, que só não tinha sangue comum, porquanto Bentinho era filho de seu pai e Capitolina de sua mãe!
Não sei se já referi, mas o meu bom aluno por certo já percebeu, que Bentinho e Capitu, criados como irmãos, amavam-se como homem e mulher, passando fogosas noites de amor casto, nos braços tenros um do outro, pormenor terrivelmente importante na vida deles, mas que me parece irrelevante para o caso prático! Ou não: porque ela engravidou, aos quinze anos e quer viver com ele, sendo que, a mãe é contra.
Já depois de casados surge o drama: Capitu, após ter descoberto sms comprometedoras no telefone de Bentinho, trocou o seu amado que afinal não a amava tanto assim, por um novo vicio chamado cocaína, vendendo todos os seus bens para comprar o produto e, quando mais nada tinha de seu, deu em assaltar velhas daquelas muito velhas, para que com o produto do roubo comprasse o produto do seu vício! Mais: uma noite fez o coito com o Padrasto, só para se vingar!
Enquanto isso uma colega vossa de serviço social casou hoje com um velho que estava quase a morrer, que, em herança, lhe deixou imenso dinheiro e um gato coxo!
Quid Juris

Caso 16


Estava um tipo sentado no gabinete, a pensar em coisas inconfessáveis, intraduzíveis para uma folha branca, quando a realidade o acordou para a necessidade de elaborar um intrincado caso prático para umas donas de casa desesperadas e outras como tais, sobre complexos temas estranhos.
Chamemos Açucena à nossa heroína em homenagem a uma namorada de infância cuja memória o tempo foi incapaz de apagar, uma petiza linda, com um olhar perfurante, daqueles cuja intensidade nos faz rir ou chorar, que faz de nós os mais infelizes felizes do mundo. Ou o contrário, na distância de um instante. Açucena tinha a idade dela, a mesma que o seu irmão gémeo, curiosamente, dezasseis lindas primaveras; no entanto, amavam-se como homem e mulher e viviam maritalmente há mais de dois anos. Aliás, o amor tão grande que encomendaram um filho! Lindo como o breu! Para se sustentarem, ele assaltava velhas.
Os pais dos gémeos eram casados um com o outro e tinham a triste ideia de serem felizes, terrivelmente apaixonados, como uma labreguinha que após quatro anos de namoro ainda sente por o namorado o mesmo desejo do primeiro dia! Aliás, eles eram um casal tão felizes, que até faziam troca de casais com enorme alegria. Sobretudo ela, porque ele era rapaz tímido. Tímido, mas como gosto por coisas caras: sempre que iam para troca de casais ofereciam um IPAD aos parceiros, comprou um carro para ele topo de gama e mais coisas que agora não me recordo, deixando um rasto de dívidas.
Nisso ele era o oposto do seu irmão Engrácio, um tipo engraçado, que vivia maritalmente com a mulher com quem ele vivia maritalmente! Até ao dia que caiu em tentação: a sua enteado, Lolita de seu nome, dezassete anos de idade, passava o tempo a desfilar pela casa em parcas roupas, com aquelas coisas que as miúdas modernas usam para parecer que não são pitas, que lhe pedia dinheiro e cigarros, em troca de promessas que um dia foram realidades: não vou entrar em pormenores porque as minhas doces discentes são angelicais, mas, a verdade, é que Engrácio foi apanhado a fazer o coito com a enteada, no berço conjugal. O drama foi tão grande, que a mãe, ao apanha-los assim, morreu! Quiçá de inveja.

Quid Juris