sexta-feira, 1 de junho de 2012

Caso 24


No céu uma deslumbrante lua de sábado transformava a noite em dia, numa claridade triunfante que invadia a janela mal fechada, oferecendo ao quarto escuro uma luz arrebatadora. Debruçada sobre a cama, Amaranta lia “os cem anos de solidão” e meditava com a sua vida se misturava com a sua homónima do romance de Garcia Marques, tal como ela imaculada, presa em amores não consumados.
Rebeca, sua irmã mais jovem, jovem ditosa de dezasseis anos, corpo de pecado, tinha comprado um ipad ultimo modelo, para estar sempre disponível para os namorados que acumulava no Facebook. Por falar em Facebook, recordo os meus estimados discentes que o limite de páginas para este caso prático é de CINCO e não irei avaliar a parte que exceder este limite. Recordo-vos ainda que Rebeca era surda e muda, quiçá, uma das razões do seu sucesso com o sexo oposto.
Pela morte de José Arcádio, Rebeca herdou uma propriedade na serra de Serpa, a beijar o Guadiana, que vendeu a Aureliano, invisual, por um preço que até tenho vergonha de contar.
O desejo de Rebeca era usar o dinheiro da venda, para comprar uma mochila pequenina às bolinhas amarelas que ela tinha visto numa loja ao pé do liceu, para ir calcorrear a Europa, ver o mundo, colecionar memórias; mas a vida é um percurso complexo, onde amiúde nas estradas da vida os sorrisos se transformam em lágrimas e, nas vésperas da partida, com bilhetes comprados, uma doença ruim levou Rebeca ao Hospital, onde lhe foi diagnosticado risco de vida; a única solução, imperativa, urgente, imprescindível, era uma transfusão total de sangue. Úrsula, sua mãe, concordou de imediato, mas esbateu na intransigência de Rebeca, que agarrou-se aos seus credos religiosos, recusou obstinadamente o tratamento proposto e manteve o firme propósito de colocar a sua vida nas mãos de Deus.
Foi a semana horribilis de Úrsula; dois dias antes de descobrir a doença maligna da filha, tinha descoberto um vídeo caseiro, onde o seu marido a traia, na própria cama conjugal, com duas desavergonhadas perversas, mulheres de má índole, pelo que, não apenas desejava o divórcio, como era sua firme intenção usar aquele vídeo, guardado no telefone topo de gama do marido, em Tribunal, numa acção judicial que iria interpor numa das semanas vindouras.
Remédios, a mulher mais bonita que existiu no mundo, estava obscenamente apaixonada por Buendia, mas, com tudo o que tinha vivido na vida da sua família, abominava o casamento, que achava castrador; por isso mesmo, decidiu que iria partilhar a vida com ele, sem casar; mas temerosa que ele abusasse da sua ingenuidade, para meter a mão no património dela, requereu a si, aluno do segundo ano de solicitadoria, que realizasse um contrato de união de facto, de forma a precaver-se!
Quid juris

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