quinta-feira, 5 de julho de 2012

Caso 30


O Xico Tuga é uma espécie de Deus Grego da Planície, o terror das meninas puras e imaculadas! E das outras também. Desde petiz que era robusto e espadaúdo, com atributos muito peculiares, cresceu nas montanhas de Mértola, respirando os aromas fortes da Serra, correndo naqueles montes sem fim, como um cabritinho doido! Na idade adulta, deixou a pacatez da província e instalou-se em Beja. Foi onde o conheci! Dos mais sensuais homens com que me cruzei na vida; fico arrepiado só de recordar. Um metro e noventa de homem, noventa quilos, patilhas que se unem com o espesso bigode, cabelo imenso impreterivelmente lavado de quinze em quinze dias e um odor corporal, que só os verdadeiros machos exalam e no braço, tatuado a amarelo canário, Amor de Mértola! Xico Tuga tinha uma grave doença, uma crónica alergia ao trabalho, uma doença incurável que o acompanhou toda a vida. Uma vez ainda tentou ir para um bar, mas foi recusado porque o dono do bar obrigou-o a permitir o acesso à sua página de Facebook e ficou escandalizado com o que leu!
Aos 25 anos juntou-se com uma petiza de 16 anos, que, por pudor, não vou descrever neste texto, embora, se me é permitido opinar, merecia que o fizesse ou se eu fosse possuidor do talento para pintar, que a imortalizasse como Munch fez com a sua Madonna ou escrever-lhe um poema, um soneto de amor. Talvez por isso ou talvez não, a miúda comprou uma mota, que insistia em conduzir sem capacete.
Como Xico queria ser pai e a petiza não tinha vontade de engravidar com medo de comprometer o corpo de iogurte, procuraram um aluno de solicitadoria para saber quais as possibilidades. O aluno ainda pensou que queriam outra coisa, mas cedo percebeu que era apenas uma consulta jurídica.
Foram felizes durante anos. Muito felizes. Mais felizes do que eles sabiam. Ou do que ele sabia, porque era demasiado burro para perceber a verdade, que se lhe esbatia no rosto, com a força bruta das evidências, chocando na sua indiferença. Porque na vida os homens se dividem em tolos e muitos tolos e o nosso Xico não era tipo para viver sem exageros; assim, no dia em que ela fez 22 anos, teve a paupérrima ideia de lhe propor que passassem a viver com outro casal, partilhando os quatro, coisas que fico corado só de pensar, que me penitencio por depositar neste texto. O que fizeram durante dois anos, dois meses, dois dias, duas horas, até que aconteceram duas coisas que me recuso a contar!
Vanessa, a petiza, hoje mulher, rumou para as Caraíbas onde casou com o marido dela e, quando regressou a Portugal, dois meses depois do casamento já estava grávida de 90 dias. E tudo piorou quando a criança nasceu; porque a criança era negra, o marido da Vanessa começou a desconfiar que o filho não era dele.
E um dia bateu-lhe! E chamou-lhe vagabunda ordinária, pêga de estrada! E outras coisas mais. E bateu no recém-nascido. E teve sexo com a irmã da Vanessa, que morava lá em casa desde sempre, num dia em que ela fez 15 anos.
Quid juris

Caso 29


O Xico Tuga é uma espécie de Deus Grego da Planície, o terror das meninas puras e imaculadas! E das outras também. Desde petiz que era robusto e espadaúdo, com atributos muito peculiares, cresceu nas montanhas de Mértola, respirando os aromas fortes da Serra, correndo naqueles montes sem fim, como um cabritinho doido! Na idade adulta, deixou a pacatez da província e instalou-se em Beja. Foi onde o conheci! Dos mais sensuais homens com que me cruzei na vida; fico arrepiado só de recordar. Um metro e noventa de homem, noventa quilos, patilhas que se unem com o espesso bigode, cabelo imenso impreterivelmente lavado de quinze em quinze dias e um odor corporal, que só os verdadeiros machos exalam e no braço, tatuado a amarelo canário, Amor de Mértola! Xico Tuga tinha uma grave doença, uma crónica alergia ao trabalho, uma doença incurável que o acompanhou toda a vida.
Casou aos 25 anos, com uma septuagenária muito sensual; nas ruelas da cidade, línguas infelizes praguejam que Xico só casou com a velha porque ela era rica, uma enorme mentira, porquanto, o tempo provou, que mais do que o dinheiro, o grande interesse de Xico era a sobrinha da senhora. Aconselhado por uma maléfica estudante de solicitadoria, que dizem as línguas perversas coisas que sou demasiado cândido para repetir, Xico e a septuagenária fizeram um acordo antes do casamento para que o regime de bens fosse a comunhão geral.
Como Xico queria ser pai e a senhora não tinha vontade de engravidar, procuraram um aluno de solicitadoria para saber quais as possibilidades.
Nos primeiros meses de casados foram muito felizes; ela adorava oferecer-lhe presentes caros e ele era tão generoso que os aceitava. As coisas só começaram a correr mal, quando ele comprou um Audi A1 para oferecer a uma amiga muito intima e esqueceu-se de o pagar; sendo que a septuagenária também se recusou a fazê-lo! Confusa com a diferença entre encargos normais da vida do casal e proveito comum.
E tudo piorou quando a senhora o apanhou a fazer badalhoquices sexuais com a sobrinha, uma miúda de 16 anos. A senhora, quando viu aquilo que nunca ninguém devia ser obrigado a ver, sentiu sentimentos que se sentem, subiu-lhe uma coisa dentro dela, os calores, uns maus humores, uma indignação, que agarrou numa faca e só não cortou ao Xico uma parte do corpo que ele muito estima, porque este meteu a mão à frente das suas vergonhas e correu para a rua, vestido com a roupa com que nasceu. Ainda hoje se comenta pela cidade, a história da velha muito velha a correr como uma moça nova, praguejando como um camionista, enquanto um jovem pouco jovem com as vergonhas a badalar.
No caminho, cruzaram-se um miúdo de 6 anos a pedir dinheiro no meio da estrada, para ajudar a alimentar uma família, vítima de uma sociedade egoísta.
Quid juris

Caso 28


1. Carina Alexandra é uma petiza amorosa, que esconde sobre um olhar intimidante um terno coração de ouro, uma postura angelical e inocente na vida, crente que o seu semelhante procura o bem, a paz e a fraternidade, o amor, os passarinhos, as pessoas felizes e os pratos tradicionais mediterrânicos, com excepção da paelha, por razões que são tão óbvias que até assustam.
Depois de anos num convento, onde correu para carpir mágoas e conviver com a  sua catarse, cruzou-se com o sensual Xico Tuga, o Casanova da Planície e o seu coração galopou como égua melancólica assustada, sentiu-se inebriada num sentimento novo que desconhecia e entregou-se a uma paixão mais forte que ela, quebrou as amarras que a prendiam ao divino, para se entregar ao carnal; um mês depois, estavam casados, numa daquelas praias paradisíacas lá para os lados das caraíbas.
E compraram carro, móveis e uma viagem de lua-de-mel. Tudo pago por ela, porque ele era alérgico a trabalhar. E moraram numa casa dela, doada por uma tia surda, há muitos anos atrás. Que ela depois quis vender, mas que ele era contra. Aliás, quando a tia lhe ofereceu a casa, ainda ela se chamava Carlos Alexandre. Um pequeno pormenor que ela só contou ao marido depois do casamento. Quando ele quis ser pai e ela teve de explicar a impossibilidade. Ainda lhe perguntou se ele queria ir com ela ver os aviões, mas ele desapareceu sem deixar rasto nem morada.
Mas já antes disso o sonho se tinha esvanecido numa noite de verão: ao regressar inusitadamente a casa, encontrou Xico Tuga a comer um brigadeiro que não era seu, nos braços desnudas da invejosa Doroteia, judas na pele de amiga, que por mesquinha inveja tinha arrastado Xico para o pecado. Carina ficou desesperada e procurou a sua ajuda para saber quais as possibilidades que tinha.
Regressou a casa e deitou-se. Como estava calor, deixou a janela aberta. Não conseguia dormir e tomou comprimidos. E perdeu a razão. Mas acordou sobressalta, com o tarado do sobrinho, um doidivas de quinze anos, a fazer o coito com ela adormecida.
Quid Juris
2. Carina quer pedir indemnização a Xico Tuga por este ter andado a comer um brigadeiro que não era o dela. Ajude-a. ela está triste e desesperada e o meu bom discente é exactamente o que ela precisa!

Caso 27


1. A primeira vez que se viram ela não o viu! Ou quiçá o tenha visto mas não o olhou! Ela estava de vestidinho branco, mais curto que o pudor, sentada numa esplanada de um café, daqueles onde há gente que passa. E ele, numa mesa, comentou com escárnio e sentiu-se mergulhar no paradoxo que explica que o nos repulsa também nos atraí.
Conheceram-se tempos depois. Pelo Hi5, porque o Facebook ainda faziam parte de um futuro por inventar. Apaixonaram-se. Ou pelo menos ele gosta de pensar que foi paixão. Ele encantou-se por aquilo que ela era, ela diz-se que se apaixonou por aquilo que ele dizia ser. Apaixonaram-se, como todas as outras pessoas se apaixonaram. Uma mistura de milagre com pecado. E foram felizes, mesmo na infelicidade. Viveram juntos 4 anos. Ele a trabalhar, ela a gastar o dinheiro dele. Compraram um carro, que ela agora diz ser dela. Porque ele a deixou! Porque se cansou de partilhar a vida dele com as mentiras dela. E quis ir a tribunal exigir indemnização pelo sofrimento da traição, usando como provas as fotografias que descobriu no telefone dela. E que fotografias. Coisas que homem nenhum devia ver a sua mulher fazer com outro homem. Numa delas, um homem amarrou-a e bateu-lhe com um chicote. Ela gritava. Mas não parecia ser dor.
Ele jogou-se de uma ponte. Dizem que foi suicídio, mas a mim sempre me pareceu homicídio, porque foi a traição dela que o matou. Porque ele já estava morto quando se jogou daquela ponte. Quando ela soube, correu para o banco de esperma, para ser inseminada com o esperma dele. E engravidou! Ela diz que foi por amor e arrependimento. Eu acho que foi ganância, para conseguir ficar com parte da herança dele.
Quando a criança nasceu, ela deu-lhe o nome dele. E durante quinze anos, a criança dormiu sempre na cama dela. E ela viveu para a criança. E a criança para ela. Tanto que foi demasiado. Mas era impossível saber. Ou eu gosto de pensar que era impossível saber e assim suportar as minhas culpas! Quando ela engravidou, eu já desconfiava. Porque as evidências começaram a gritar quando ele se tornou adolescente. Se o filho dela é também filho dele, para ser honesto, ainda hoje não o sei. Apesar de o querer saber. Mas o que eu já sei, o que hoje todos sabemos, é aquela mãe deixou de amar o filho como mãe e entregou-se-lhe como mulher e juntos partilharam noites de sexo.
Quid juris

2. Xico Tuga foi trabalhar como barman numa daquelas “festas brancas” com pessoas “trendy” e “cool”, com sobrenomes, descapotáveis, partes do corpo comprado a cirurgiões, onde se consomem aquelas coisas que por pudor não digo; no fim da noite, aconteceram coisas. E ela engravidou. E ele era o pai. Goste ou não goste. E ele foi ter consigo, pedindo-lhe uma regulação das responsabilidades parentais. Receoso. Porque ele vai trabalhar para Londres. E tem medo que a mãe da criança, que tem muito dinheiro, teime em que a filha tenha um nível de vida que ele não possa pagar.