quinta-feira, 5 de julho de 2012

Caso 27


1. A primeira vez que se viram ela não o viu! Ou quiçá o tenha visto mas não o olhou! Ela estava de vestidinho branco, mais curto que o pudor, sentada numa esplanada de um café, daqueles onde há gente que passa. E ele, numa mesa, comentou com escárnio e sentiu-se mergulhar no paradoxo que explica que o nos repulsa também nos atraí.
Conheceram-se tempos depois. Pelo Hi5, porque o Facebook ainda faziam parte de um futuro por inventar. Apaixonaram-se. Ou pelo menos ele gosta de pensar que foi paixão. Ele encantou-se por aquilo que ela era, ela diz-se que se apaixonou por aquilo que ele dizia ser. Apaixonaram-se, como todas as outras pessoas se apaixonaram. Uma mistura de milagre com pecado. E foram felizes, mesmo na infelicidade. Viveram juntos 4 anos. Ele a trabalhar, ela a gastar o dinheiro dele. Compraram um carro, que ela agora diz ser dela. Porque ele a deixou! Porque se cansou de partilhar a vida dele com as mentiras dela. E quis ir a tribunal exigir indemnização pelo sofrimento da traição, usando como provas as fotografias que descobriu no telefone dela. E que fotografias. Coisas que homem nenhum devia ver a sua mulher fazer com outro homem. Numa delas, um homem amarrou-a e bateu-lhe com um chicote. Ela gritava. Mas não parecia ser dor.
Ele jogou-se de uma ponte. Dizem que foi suicídio, mas a mim sempre me pareceu homicídio, porque foi a traição dela que o matou. Porque ele já estava morto quando se jogou daquela ponte. Quando ela soube, correu para o banco de esperma, para ser inseminada com o esperma dele. E engravidou! Ela diz que foi por amor e arrependimento. Eu acho que foi ganância, para conseguir ficar com parte da herança dele.
Quando a criança nasceu, ela deu-lhe o nome dele. E durante quinze anos, a criança dormiu sempre na cama dela. E ela viveu para a criança. E a criança para ela. Tanto que foi demasiado. Mas era impossível saber. Ou eu gosto de pensar que era impossível saber e assim suportar as minhas culpas! Quando ela engravidou, eu já desconfiava. Porque as evidências começaram a gritar quando ele se tornou adolescente. Se o filho dela é também filho dele, para ser honesto, ainda hoje não o sei. Apesar de o querer saber. Mas o que eu já sei, o que hoje todos sabemos, é aquela mãe deixou de amar o filho como mãe e entregou-se-lhe como mulher e juntos partilharam noites de sexo.
Quid juris

2. Xico Tuga foi trabalhar como barman numa daquelas “festas brancas” com pessoas “trendy” e “cool”, com sobrenomes, descapotáveis, partes do corpo comprado a cirurgiões, onde se consomem aquelas coisas que por pudor não digo; no fim da noite, aconteceram coisas. E ela engravidou. E ele era o pai. Goste ou não goste. E ele foi ter consigo, pedindo-lhe uma regulação das responsabilidades parentais. Receoso. Porque ele vai trabalhar para Londres. E tem medo que a mãe da criança, que tem muito dinheiro, teime em que a filha tenha um nível de vida que ele não possa pagar.

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