quarta-feira, 31 de julho de 2013

Caso 37


Todas as histórias de amor têm uma banda sonora, porque não há amor verdadeiro sem que quando nos beijamos estejamos a ouvir a nossa canção. No silêncio da paixão. Tolstoi ensinou-nos todas as famílias felizes são iguais; as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira. E a nossa história começou como nenhuma deve começar, envolta em pecado, em mentiras, rodeada de medos e incertezas. Mas, se calhar, todas as verdadeiras histórias de amor começam assim. Mas só algumas duram para sempre. E desde aquele primeiro dia percebi que havíamos de engordar juntos. E passear na nossa praia ao fim da tarde ...
Na mesma praia onde Hermenegildo conheceu Asdrubalina, uma daquelas mulheres tão feia que dói só de olhar; felizmente Hermenegildo é invisual e nunca teve a infelicidade de a ver; mas o amor é cego e Hermenegildo ofereceu-lhe um anel de diamantes, pediu-a em casamento e ela aceitou casar com ele, porque ele era rico e a ela ninguém lhe pegava. A intimidade da lua de mel foi filmada e Asdrubalina vendeu as imagens, sem o consentimento dele, a um site, onde os alunos de Solicitadoria recorrem para se inspirar para estudar Direito das Pessoas e da Família. E num desses momentos de intimidade, Hermenegildo implorou-lhe para que ela lhe batesse com uma colher de pau, o que ela aceitou fazer, com uma dedicação tão intensa que lhe destruiu o baço! Depois comprou um barco e fugiu com aquela labreguinha da terceira fila. No carro que ele lhe tinha oferecido. Sendo que tudo ficou por pagar.
Como a vida a dois é monótona, Asdrubalina e a labreguinha convidaram Hermengarda para viver com elas e durante três anos, três dias e três horas partilharam casa, mesa e cama, uma bimby e outras coisas que o pudor me impede de partilhar. E foram felizes. Até ao dia que em foram infelizes, porque a labreguinha apaixonou-se por um rapaz de 14 anos, cheio de fôlego e energia, com um conjunto de talentos ocultos que penso não ser necessário enfatizar. E ficaram felizes quando ela engravidou, para horror dos pais dele!
Asdrubalina e Hermengarda resolveram continuar juntas, mas como sozinhas aborreciam-se, resolveram engravidar as duas; Asdrubalina aceitou ser barriga de aluguer de um casal de milionários que lhe ofereceu 50 Euros e uma operação estética; Hermengarda que tinha horror a homens, pediu a um amigo uma doação de esperma e realizou uma inseminação artificial caseira. Engravidaram ambas e hoje desconhecem quem é o pai da criança.
Quid Juris

Caso 36



No rádio tocava Aerosmith que explicava como era bom ficar acordado só para ouvir você dormir, vê-la sorrindo quando está a dormir; porque amar é apenas querer ver o outro sorrir, ainda que seja ao longe, ainda que sorria com outra pessoa; porque amar é largar e deixar voar para Lisboa, como Rick no Casablanca, ciente que o tempo passa; porque há histórias de amor para viver e outras para guardar na caixa da memória das recordações e outras que nem o nome lembramos ouvir; e entretanto o silêncio foi entrecortado pelo padeiro, que era quem trazia o correio à aldeia perdida na serra, desde que os CTT tinham começado o processo de privatização.
Uma das cartas era do antigo carteiro, filho do carteiro do Pablo Neruda, que desafiava o nosso anti-herói para um duelo com espadas, depois de ter descoberto que ele tinha andado a petiscar a sua namoradinha: o encontro foi marcado para as margens da praia fluvial, pelo pôr-do-sol daquela tarde de verão, sendo que dos dois, apenas um ia sobreviver. E porque ambos eram homens de honra, na hora marcada, lá estavam os dois, de espadas afiadas.
O carteiro filho, que dias antes, os tinha apanhado na cama que partilhava com a labreguinha há mais dois anos, sete meses, catorze dias, oito horas e catorze segundos, aproximadamente. Casa que era dele, herdade de uma morta qualquer, mas que ela teimava que devia poder continuar a morar, com o argumento quase jurídico, que tinha sido muitas vezes feliz naquela casa. Como tinha referido naquela noite de lua divina, enquanto comia uma açorda de ovas de sável e muge frito, numa tasquinha deliciosamente ordinária.
Na exata mesma hora, uma prima afastada do tio de alguém, recebia um carro descapotável, num amarelo discreto, prenda do seu tio, que também era seu marido, que se fingia de rico para seduzir a ingénua sobrinha, que amava mais as prendas do que o amava a ele: sucede, que contrariamente ao que ele lhe disse, o carro oferecido e que ela garbosamente conduzia, saiu do stand, com a totalidade do preço por pagar.
Francisca, como se chamava, tentou ser fiel durante quase seis meses; esforçou-se e benzeu-se, achincalhou os seus pretendentes, apesar de no fundo não ignorar que ele apesar de ser o marido dela, não lhe dava carinho nem atenção, que todos os pretextos eram bons para não estar com ela: e um dia, porque há sempre um dia, vestiu uma mini-saia e uma blusa decotada de coragem e fez aquilo que há muito desejava. Que por pudor não conto, porque há coisas demasiado boas para serem partilhadas. E, só para complicar a vida daqueles que fazem este teste, ainda colou no facebook as fotos explícitas da traição.
E fugiram nesse mesmo dia para uma ilha paradisíaca onde casaram numa praia, daquelas em que água faz inveja aos mais belos olhos azuis. E regressaram: com ela grávida, sendo que a conceção deverá ter acontecido na semana anterior à viagem!
Quando a criança nasceu, ela estava cheia de vergonha, pelo que, cedeu a criança a um casal de lésbicas, que a receberam com mais amor do que o próprio amor é capaz.
Quid Juris