quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Caso 42

D. Ana dedicou toda a sua adolescência a colecionar homens; enamorava-se com a periodicidade das mudanças da lua, amava apaixonadamente e em simultâneo, de todos afirmava desejar filhos, construir uma casa e depois erguer um lar, mas tinha a volatilidade imbecil das pessoas em formação e, com a mesma candura que numa madrugada se entregava a um, na manhã seguinte, recebia outro no seu leito, a quem também afiançava amar.
Mas porque a vida é mais curta que a imensidão dos anos que teimam em passar incessantemente, a beleza começava a fugir-lhe, ficando só nas suas múltiplas imperfeições, pelo que, sem espanto, agarrou a única alternativa possível: casar com o sexagenário Santos Lucena, que lhe oferecia conforto económico e uma situação social respeitável.
D. Ana foi fiel até ao dia que deixou de ser, poucos meses depois do casamento. Santos Lucena casara tarde, com fêmea forte e, não obstante, D. Ana partilhar os prazeres da cama com Gonçalo, Santos Lucena não resistiu aos comprimidos que tomava para desempenhar a sua missão conjugal e foi traído pelo coração e morreu, aquela madrugada. De repente. Angina pectoris. Meses antes, debatia-se com a vontade de vender o palacete que habitavam, herança de família, perante a firme oposição de D. Ana. E perante a recusa da esposa, ofendia-a com todos os nomes que, por pudor, deixo escrito na imaginação do meu bom aluno.
O funeral foi oficializado pelo padre Soeiro que, desde há dez anos, partilhava casa, mesa e cama com uma das suas beatas, que sob o pretexto de ser governanta, dava calor às noites do velho pároco (e que, logo depois da sua morte, tentaram expulsar da casa que habitavam).
Efetivamente Joao Gouveia tinha razão: Gonçalo Ramires com os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à ideia era… Portugal; aos quinze anos, saiu de casa, foi estudar leis para Coimbra e comprou uma vespa, um telemóvel e uma minissaia, com dinheiro que tinha herdado do Fidalgo da Torre.
Mas o drama familiar era o cunhado Barrolo (conhecido entre os amigos por Bacoco), casado com a irmã D. Graça, mas que se perdia na internet em conversas obscenas com petizas de menor idade. Por estes dias, estava encantado com as manas Lousadas, de 13 e 15 anos; conseguiu persuadir ambas a despirem no Skype e gravou estes momentos, para depois as ameaçar com a divulgação dos conteúdos [o que fez], caso se recusassem a copularem com ele. Porque apenas a mais nova anuiu, uma tarde, perseguiu na rua a mais velha, obrigou-a a entrar no carro e, perante os seus gritos mudos, fornicou-a!
Quid Yuris

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