quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Caso 44


Quando Constance casou com Clifford Chatterley estava enamorada do seu noivo; poderá o nosso estudante pensar que é ingenuidade romântica deste tolo que vos escreve, que Constance apenas ambicionava tornar-se Lady Chatterley, que estava ofuscada pelo título e apaixonada pela futura posição social, mas, vou morrer convicto, de que houve um momento em que o seu amor foi real. Mas depois veio a guerra e Clifford foi embora: e uma mulher no auge da sua voluptuosidade, um corpo jovem a reclamar atenção, sente a solidão de forma exasperante. Mas a Lady Chatterley era mulher ciosa dos seus valores e aguentou estoicamente todas as tentações. Até que Clifford regressou: ou parte dele, porque estropiado na guerra, deixou nas trincheiras parte do seu corpo, a sua masculinidade, regressando farrapos do bonito homem que meses antes partira.
Foi quando regressaram ao campo; Clifford estava quase paralítico e com uma quase total incapacidade de cuidar de si e do seu património. Lady Chatterley foi durante anos a mais dedicada das enfermeiras: e a sua fiel secretária, que, todas as noites sem exceção, se sentava junto a ele a escrever os romances que ele lhe ditava: sem amor, sem paixão, sem um carinho!
E tantas vezes, quando Clifford se irritava, chamava-lhe nomes indecorosos: estamos certos, que apenas não lhe levantou a mão, porque era paralítico! Pelo que, nada nem ninguém se surpreendeu, quando ela se envolveu sexualmente com outro homem: a única surpresa foi o facto de Mellors ser um guarda da quinta, um plebeu, em vez dos aristocratas amigos de Clifford que amiúde frequentava a casa!
Mas Lady Chaterley, que era mulher, bela e sensual, escolheu entregar-se por amor! Uma raridade, refira-se! Dessa paixão consumida na floresta, resultou uma gravidez; Clifford, orgulhoso, teimou em assumir a criança como sua, para angústia do casal enamorado! Por essa altura a irmã de Lady Chatterley estava viúva do homem com quem não casara, mas partilhara dez anos da sua vida; e amargurada porque os herdeiros desse homem a queria por na rua da casa que habitavam e insistiam que nada do que estava na casa lhe pertencia, porque ela nunca tinha trabalhado um único dia na vida!
O pai de Lady Chatterley, um velho barão arruinado, ficou feliz com a traição da filha: homem boémio, entristecia-o ver a sua filha envelhecer ser conhecer os prazeres da vida! No caso dele, foram os prazeres da vida que o envelheceram: todos os dias bebia excessivamente e, quando ébrio, delapidava o seu património! Por exemplo, no dia em que soube da triste alegre notícia da gravidez da sua primogénita, vendeu um carro por um quarto do seu valor, apenas para pagar uma jantarada aos amigos: uma perdiz enrolada em couve, acompanhada por um tinto dos Grous Moon Harvested e uma sobremesa de encharcada de ovos. E outros acompanhamentos, que o pudor me proíbe de partilhar com tão cândida audiência!
E, era isto que tinha para vos contar: boa sorte & essas coisas